AgricOnline

Rua Projetada, 470 – segundo andar –Rio Bananal / ES.

 atendimento@agriconline.com.br

CNPJ: 32.106.995/0001-66

Cacau: do plantio à colheita


Cacau

Theobroma cacao L.

 

 

 

O cacaueiro pertence à ordem Malvales, família Malvaceae. Anteriormente, fazia parte da família Sterculiaceae, porém esta, desde 2009, segundo a nova classificação filogenética das angiospermas foi incorporada à família Malvaceae. Trata-se de uma espécie perene, arbórea, tropical, nativa da região de floresta úmida da América, onde se apresenta em condição de sub-bosque. Através dos tempos o cacaueiro e seus frutos têm despertado o interesse de tantos quantos puderam ter a oportunidade de conhecê-los. Sua história é repleta de lendas e mitos, cujas origens remontam a tempos imemoriais. 

 

Os astecas atribuíam ao cacaueiro origem divina. A planta era cultivada muito antes da chegada dos europeus à América pelos maias, no México e na Guatemala, constituindo-se estes, nos primeiros povos conhecidos a considerar as qualidades valiosas de suas amêndoas. O cacaueiro é uma espécie monoica e cauliflora, ou seja, as plantas florescem e frutificam no tronco e nos ramos. As flores são hermafroditas, existindo especificidade de polinizadores, basicamente micromoscas do gênero Forcypomia (Diptera, Ceratopogonidae), que parecem ter coevoluído com o cacaueiro. Os frutos são sustentados por pedúnculos lenhosos procedentes do pedicelo das flores. A cor, forma e tamanho dos frutos são bastante variáveis, segundo os materiais genéticos.

 

A cor dos frutos imaturos varia do verde ao vermelho e quando maduros, o verde passa a amarelo e o vermelho a alaranjado. A forma dos frutos varia desde cilíndrica com extremidade pontiaguda até a forma amelonada, ou seja, com a aparência de um melão. No interior dos frutos estão as sementes, em média de 30 a 40, envoltas em polpa mucilaginosa, rica em açúcares, que desempenha importante papel no tratamento pós-colheita do cacaueiro. As sementes variam bastante na forma, tamanho e coloração dos cotilédones, que está associada aos grupos aos quais pertencem, podendo variar do branco ao violeta-escuro, com diferentes tonalidades entre esses extremos.

 

Os cotilédones apresentam três tipos de células: células da epiderme; células de reserva, que constituem ao redor de 90% dos tecidos dos cotilédones, incolores contendo cristais de manteiga de cacau, proteínas e grãos de amido; células que constituem cerca de 10% dos cotilédones, que contêm as purinas, teobromina e cafeína, e também os polifenois (taninos, antocianinas), que conferem cor aos cotilédones. 

 

Todos estes compostos participarão de transformações bastante complexas durante o período pós-colheita, realizado ainda na propriedade agrícola, que culminarão na síntese dos muitos compostos geradores do tão conhecido e tão apreciado “aroma chocolate”. A palavra chocolate tem origem mexicana, existindo na literatura algumas teorias explicando seu significado. O cacau, sob a forma de seu principal produto, o chocolate, segundo vários autores, “é talvez aquilo que representa melhor a perplexidade dos europeus diante de uma planta alimentícia proveniente da América”, nenhuma outra planta americana tendo suscitado tanto entusiasmo. O primeiro do trio chá-café-chocolate, este permaneceu um produto de luxo na Europa, onde durante muito tempo foi consumido apenas como bebida. Somente no século XIX seu uso em confeitaria, tal como é conhecido atualmente, começou a ser generalizado. Segundo a FAO, o Brasil ocupa o sexto lugar entre os maiores produtores de cacau, com produção de 248.524 t, enquanto a Costa do Marfim é o maior produtor mundial com 1.350.320 t.

 

Cultivares: clones selecionados adaptados às condições de solo e clima do Estado de São Paulo, e híbridos provenientes de cruzamentos interclonais.

 

Clima e solo: o cacaueiro encontra-se como cultivo comercial em regiões situadas entre as latitudes 15o N e 20o S. Mundialmente a maioria das regiões produtoras está situada entre as latitudes 10o N e 10o S, sendo a área mais extensa além de 10o S representada pelo Estado da Bahia. No entanto, no Estado de São Paulo, nas regiões do Vale do Ribeira, bem como no litoral Norte, região de Ubatuba, em latitude ao redor de 23o S, portanto em condição subtropical, existem pequenos plantios de cacaueiros. 

 

O cacaueiro aclimata-se adequadamente em regiões de temperaturas médias anuais ao redor de 21 oC. Temperaturas mais baixas que esta média fazem com que frutos desenvolvidos durante o inverno apresentam manteiga de cacau com ponto de fusão mais baixo, comprometendo portanto sua dureza, propriedade importante do ponto de vista industrial. Temperaturas abaixo de 9 oC danificam os cotilédones, comprometendo o vigor das mudas propagadas por sementes. Quanto aos solos, devem ser profundos e bem drenados.

 

Propagação: o cacaueiro pode ser propagado tanto por mudas provenientes de sementes, como por meio de propagação vegetativa de clones selecionados, por estaquia ou enxertia. A tomada de decisão entre se plantar clones, ou híbridos e cultivares por semente depende de genéticos, tecnológicos, bem como do contexto da cacauicultura.

 

Preparo da área: sombreamento - o cacaueiro é usualmente plantado sob outras espécies, que propiciarão proteção às plantas. Podem ser considerados dois tipos de sombreamento - temporário e permanente. O primeiro, tal como o nome indica, permanecerá na área de cultivo apenas durante os primeiros anos para propiciar aos cacaueiros jovens proteção contra o excesso de radiação solar e os ventos fortes, estes bastante prejudiciais à cultura. Uma espécie bastante utilizada para essa finalidade é a bananeira, que deve ser plantada anteriormente ao cacaueiro, de modo a fornecer-lhes sombra desde o início. Uma das possibilidades é plantar as bananeiras no mesmo espaçamento dos cacaueiros, tanto na mesma linha destes, como de forma que cada cacaueiro fique posicionado no centro de quatro bananeiras. 

 

Estas deverão permanecer apenas durante os primeiros dois ou três anos na área e durante sua permanência, à medida que os cacaueiros forem se desenvolvendo as bananeiras podem ser raleadas, convenientemente. Ao serem retiradas as bananeiras, os cacaueiros deverão estar bem formados de forma que o solo estará sombreado, impedindo assim a presença de plantas invasoras. As bananeiras enquanto presentes apresentarão produção, propiciando renda adicional ao produtor. 

 

Outras espécies poderão compor o sombreamento temporário como mandioca, mamona, etc. As espécies que propiciarão o sombreamento permanente permanecerão na área de cacau durante toda a vida desta, tratando-se obviamente de plantas perenes. No Estado de São Paulo, uma espécie interessante para essa finalidade é uma leguminosa nativa conhecida como farinha-seca (Pithecellobium edwallii), plantada em espaçamento conveniente. Outra forma interessante de sombreamento para o cacaueiro consiste no plantio associado de cacaueiros - bananeiras - pupunheiras, estas últimas desenvolvendo-se não para a produção de palmito, mas permitindo seu crescimento pleno, de modo a produzir frutos e sementes. 

 

É importante mencionar que a presença de outras espécies associadas ao cacaueiro faz com que, diferentemente de outros cultivos agrícolas mantidos a pleno sol, que sofrem diretamente os efeitos dos elementos climáticos, as lavouras de cacau sombreadas acabem criando um microclima mais favorável em seu interior, apresentando, por exemplo, menor amplitude térmica, maior umidade relativa e menor déficit de pressão de vapor do ar. Este último representa um dos fatores relacionados à fotossíntese e, portanto, ao desenvolvimento das plantas.


Espaçamento: o espaçamento varia, em função da fertilidade do solo e dos objetivos da exploração econômica, podendo variar entre 1.000 e 2.000 plantas/ha.

 

Controle da erosão: o sistema radicular do cacaueiro é mais abundante nos primeiros 20 cm do solo. Nessa porção de solo, as raízes laterais se desenvolvem em direção à superfície, com afloramento de radicelas, que se entrelaçam na superfície, formando como se fosse uma rede de radicelas, que acaba exercendo acentuada proteção contra a erosão. Em locais de declive acentuado, o plantio obedecendo às curvas de nível é indicado.

 

Calagem e adubação: aplicar calcário, segundo a análise do solo, para elevar a saturação por bases a 50%; adubação de plantio - 60 dias antes do plantio, incorporar por cova 10 a 20 L de esterco de curral ou 2 a 4 L de esterco de galinha curtidos, 100 g de P2O5, 30 g de K2O, e em solos deficientes aplicar 3 g de zinco (Zn).

 

Em cobertura, aplicar 10 g de N por planta, em quatro aplicações, a cada dois meses; adubação de formação - de acordo com a análise do solo, aplicar em cobertura ao redor das plantas, em três parcelas no período das chuvas, no 1.o ano - aplicar por planta, 40 g de N, 20 a 60 g de P2O5 e 20 a 60 g de K2O; no 2.o ano - aplicar por planta, 80 g de N, 30 a 90 g de P2O5 e 30 a 90 g de K2O; no 3.o ano - aplicar por planta, 120 g de N; 40 a 120 g de P2O5 e 40 a 120 de K2O; adubação de produção - de acordo com a análise do solo aplicar, em cobertura, em três vezes, durante os meses de chuva, 50 kg ha-1 de N; 30 a 90 kg ha-1 de P2O5, 20 a 60 kg ha-1 de K2O e até 4 kg ha-1 de Zn. Recomenda-se a utilização de 1/5 do fósforo recomendado em todas as fases da cultura na forma de termofosfato, que contém cálcio, magnésio, micronutrientes e silício, além do fósforo.

 

Tratos culturais: podas - deve ser realizada a poda de condução. O cacaueiro apresenta dois tipos de ramos, ortotrópicos e plagiotrópicos. Os primeiros nascem na base do caule, bem como de outros ramos e são também conhecidos como chupões. A poda de condução consiste na eliminação dos ramos chupões, bem como de ramos secos e daqueles que estejam voltados para o centro da planta. As podas devem ser realizadas por repasses.
Outros tratos culturais: roçadas, no início do cultivo, quando o solo ainda não está totalmente sombreado. Não são recomendadas capinas ao redor das plantas, pois o sistema radicular dos cacaueiros é superficial, e qualquer dano às raízes pode comprometer o desenvolvimento das plantas.

 

Irrigação: como espécie nativa da região de floresta úmida, ocacaueiro é exigente em disponibilidade hídrica do solo, sendo que déficits hídricos ainda que temporários são deletérios à fisiologia da planta, comprometendo a produção. Por outro lado, solos encharcados devem ser evitados. Com relação às condições hídricas, no Estado de São Paulo existem regiões aptas à cacauicultura bastantes distintas: por um lado, o Vale do Ribeira e o litoral norte do estado, apresentam precipitação adequada, bem distribuída durante o ano, não havendo ocorrência de déficits hídricos anuais importantes. Nessas regiões não há necessidade de irrigação. Por outro lado, regiões do chamado Planalto Paulista aptas ao cultivo do cacaueiro apresentam estacionalidade hídrica anual, com déficit hídrico durante os meses de inverno. Assim, ainda que o clima seja favorável, a cacauicultura somente será possível nessas regiões se houver possibilidade de se irrigar.

 

Pragas e doenças: pragas - principalmente tripes, vaquinhas, percevejos e lagartas; doenças - a doença de maior importância econômica é a vassoura-de-bruxa, causada pelo fungo Moniliophtora perniciosa de ocorrência na Amazônia brasileira e na Bahia. No Estado de São Paulo até o presente não foi registrada a presença da vassoura-de-bruxa.

 

Na Bahia, a CEPLAC vem trabalhando para substituir as plantações de cacau suscetíveis ao fungo, por genótipos tolerantes; também importante é a podridão parda causada pelo fungo Phytophthora palmivora; outras doenças de menor importância são a antracnose, o cancro descendente, a podridão-das-raízes, entre outras.

Para o controle de pragas e doenças recomenda-se buscar informações atualizadas disponíveis em: http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons.

 

Colheita: o tempo transcorrido desde a polinização até a colheita dos frutos varia com o material genético, bem como com alguns elementos do clima, como por exemplo a temperatura média do ar registrada durante o amadurecimento dos frutos. Dados do Estado da Bahia indicam que frutos que se desenvolvem durante os meses mais quentes do ano (colhidos entre abril e agosto), amadurecem em 140 dias, enquanto frutos colhidos entre setembro e janeiro, necessitam de 167 a 205 dias para amadurecer.

 

Para o Vale do Ribeira no Estado de São Paulo, dados de duas colheitas realizadas em épocas diferentes de um mesmo ano, indicaram que frutos colhidos em abril, desenvolvidos portanto durante o verão, foram colhidos em seis meses, enquanto frutos de flores polinizadas manualmente em janeiro, desenvolvidos parcialmente durante o inverno, começaram a ser colhidos apenas no mês de outubro, portanto após 300 dias.

 

A colheita dever ser realizada com tesoura de poda, cortando o pedúnculo próximo ao fruto, deixando a parte restante deste, ligada ao tronco. Após colhidos os frutos deverão ser abertos e as sementes retiradas, envoltas na polpa mucilaginosa. Estas serão postas a fermentar em recipientes de madeira, os cochos de fermentação. Durante esta fase ocorrerá aumento de temperatura com a morte do embrião da semente e no interior dos cotilédones ocorrerão as já mencionadas reações complexas que culminarão com a síntese de grande quantidade de compostos aromáticos, a partir dos quais se desenvolverá o aroma chocolate.

 

Após a fermentação, as amêndoas de cacau deverão passar por secagem, que pode ser feita ao natural, em estruturas denominadas barcaças ou em secadores mecânicos. Ao final da secagem as amêndoas deverão apresentar umidade inferior a 7%-8%. As amêndoas fermentadas e secas constituem o cacau comercial, que será armazenado em sacos de aniagem contendo 60,5 kg de amêndoas secas de cacau.


Produtividade: segundo a FAO, entre os sete maiores produtores mundiais, a produtividade em kg de amêndoas secas/ha variou entre 315 e 735. O Brasil, segundo a mesma fonte, apresentou produtividade de 365 kg ha-1.


Quer se tornar um especialista em interpretação de análise de solos e recomendação de adubação, calagem e gessagem? CLIQUE AQUI

 

 

 

 

 

Please reload

Our Recent Posts

O que fazer quando o produtor não quer fazer análise de solo?

November 18, 2019

INHAME: DO PLANTIO À COLHEITA

October 11, 2019

Pêssego: do plantio à colheita

October 9, 2019

1/1
Please reload

Tags

Please reload